O dia que a gente percebe que a vida é tão rara

Eu não entendia o valor da vida. Até agora. Até perceber que são aqueles momentos que nos pegam de surpresa que valem a pena. Aquelas risadas que te fazem chorar de rir mesmo sem saber o porquê.

Mesmo com aquela brisa do vento passando pelo meu rosto e arrepiando minha espinha como se fosse um toque delicado do universo para me lembrar que eu estou aqui e faço parte dele. Mesmo que seja um sorriso do padeiro quando agradeço o pão quentinho ou o olhar agradecido para quem seguramos a porta do elevador.

A vida é tão simples e ao mesmo tempo tão genuinamente espetacular para que a gente ocupe espaço entre ela com coisas que não valem realmente à pena.

Sei que, às vezes, temos dias com o poder de nos desanimar totalmente e, às vezes, esses dias se espalham por semanas ou meses. Mas quer saber de uma coisa? Essas coisas são necessárias. Esses dias sombrios me fazem olhar qualquer raio de sol que passa pela fresta da minha janela como um verdadeiro acontecimento.

A gente perde tanto tempo tentando enxergar futuras oportunidades e possibilidades que acabamos esquecendo de olhar para nós mesmos e ver se, realmente, estamos fazendo valer a pena o tempo que estamos de bobeira por aqui. Se estamos indo atrás do que queremos de verdade, porque ela é rara demais para simplesmente “deixar para lá” e sair por ai com sorrisos amarelos sobre realidades que não nos são suficientes. Se estamos conseguindo olhar e realmente ver tudo que temos em nossas mãos hoje, as pessoas que amamos, as coisas – por menores que sejam – que nos fazem felizes daquele jeito de sorriso largo e bobo.

Está na hora de deixar a luz chegar aos seus olhos também, para que você possa perceber que, tudo que importa de verdade, cabe (piegamente falando – e sem me importar com isso), no seu olhar e no coração.

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Do que fomos feitos até aqui.

Do que fui feita por todos esses anos está bem além da minha capacidade explicativa. Eu não sei exatamente tudo o que existe aqui dentro, não sei ainda de todas minhas capacidades e de tanto coisa que posso ou não carregar nas costas. Do que fui feita fugiu completamente do meu controle.

Se tivéssemos a real noção do que estamos carregando na nossa bagagem, com certeza não teriam essas decepções e esses tapas na cara que a vida me deu. Mas também, não conseguiria ser tão criativa para encaixar nos meus dias as surpresas que recebi dos meus dias. Esse negócio de encontro na vida é tão melhor quando não é premeditado. A vida acaba, de alguma forma, se desculpando pelas nossas noites em que nada estava fazendo sentido. E trazendo sim, boas motivações que nos faça enxergar melhor.

Do que fui feita por esses anos não é e nunca foi fácil de explicar. Talvez eu não tivesse essa sede de tentar provar ao mundo que consigo tornar minhas vontades em verdades se não tivesse percebido que as coisas não estavam andando no eixo. Talvez eu não tivesse o carinho que tenho quando tenho alguém que me faz bem ao meu lado se não tivesse encontrado alguns babacas por aí. Talvez eu me conformasse com aquela história que a gente tem que seguir pelo que já foi escrito para nós, mesmo antes de ter minhas dúvidas ou minhas vontades, se não existisse aqui dentro essa teimosia em querer tomar sempre o controle das coisas.

Nunca quis uma vida que viesse encomendada, que eu soubesse o desfecho desde o começo e ficasse só esperando os dias passarem e escorrerem entre meus dedos, mesmo que eu seja dessas pessoas ansiosas, acho que quando se trata de mim mesma algumas coisas são diferentes. Por mais que minha expectativa pelos próximos passos sempre esteja aqui presente, esse negócio de corresponder sempre às minhas expectativas nunca se encaixou muito bem no meu jeito de ver as coisas. Gosto de surpresas, gosto de ser surpreendida, gosto de, no final, olhar e falar “caramba, foi muito melhor do que eu poderia imaginar’.

Eu não sei exatamente especificar em uma lista tudo o que me formou até aqui, até porque algumas coisas estão escondidas debaixo do tapete, ou são tão fortes que não consigo descrever como uma simples coisa, como um objetivo da minha cabeceira. Mas hoje sou assim, hoje estou aqui esperando pelas surpresas que quero da minha vida. Hoje, apesar de querer minhas próprias escolhas, também desejo as surpresas do tão falado destino. E eu tenho certeza que essa mistura é sim possível. E tenho certeza de que, o que me formou até aqui nunca deixará de existir, e é apenas a raiz de muita coisa do que serei amanhã.

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Sobre nossos caminhos e outras histórias

Se não fossem as histórias imprevistas, as surpresas que tive por aí, as vezes que quebrei a cara, que caí pelo caminho, se não fossem os dias que nada fez sentido e as pessoas que também deixaram de fazer sentido para meus dias, não seria eu.

Se não fossem as brigas com meus melhores amigos, se não fosse aquilo tudo que deixei para trás, se não fosse minha constante procura por mudanças, mesmo quando imperceptíveis a olhos alheios, se não fosse essa teimosia em mostrar meu controle pelo caminho da vida e essa sensação maluca da mistura entre querer arriscar e o medo para tal, não seria eu.

Não seria eu se agisse sempre com a razão. Se não chorasse pelo medo da perda, entre outras coisas. Se conseguisse sempre fingir estar satisfeita. Se não desse risada das coisas mais idiotas. Se não sonhasse o mais alto possível e considerasse estar entre os tais piegas. Não seria eu. Não seria nem um pouco eu.

Se não fosse esse rosto que já deixou a adolescência há tempos, e esse coração que ainda não se conforma estar, definitivamente, na tal fase adulta, se não fossem as lembranças guardadas nessa mala que carrego por onde for, se não fossem os encontros que a vida colocou pelo caminho e aquele velho apego guardado, se não fosse tudo isso, e tudo o mais que ganhei e perdi, não seria eu.

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A verdade sobre aquele negócio chamado amor.

Amor é feito de encontros e verdades, dessas ditas na hora certa ou em qualquer hora. Dessas que são esperadas para serem ouvidas por muito tempo, que apertam o peito antes de dormir, que vem à tona no dia seguinte, mesmo sem querer. É casual, às vezes inesperado, às vezes passa, mas deixa suas boas lembranças na memória. Boas, sim, porque o que não faz bem, pode ser qualquer coisa, menos amor. E nada do que não for bom a gente tem que guardar. Temos que deixar espaço suficiente para descobrir tudo o que é merecedor para ocupá-lo.

Amor é troca de olhares discretos na multidão, é querer estar junto mesmo que no meio de um grande grupo de amigos falando dos causos e outras aventuras e rir de tudo isso. Amor é se importar com a bagagem que o outro também carrega, porque isso tudo define quem ele ou ela é por dentro e quem ele ou ela será ao seu lado.

Amor é verdade. Se não for verdade, se não for suficiente para você mostrar o que realmente é aí por dentro, então, sinto te dizer, mas não é amor. Não precisa ser aquela paixão doentia, não precisa te tirar o sono, não precisa ser complicado. Amor é simples, é natural que transborda pelas palavras independente se versos melosos e cartas quilométricas de juras batidas.

Amor é uno, mas ao mesmo tempo multiplica-se. Talvez não faça sentido aos mais racionais de plantão, mas amor também não exige explicações ou qualquer tipo de lógica. Amor não precisa sentir vergonha em ser próprio, porque só amando a si mesmo de verdade que a gente se prepara para bater a cara por aí e descobrir amores eternos, amores que não eram amores ou que por algum motivo deixaram de ser, amores diários e tudo mais que a vida nos reserva.

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O Boyhood das nossas vidas

Não, essa não é um novo tópico da sessão de dicas do blog. Tampouco uma análise publicitária ou qualquer coisa desse tipo. Estou aqui para falar sobre a vida, sobre os anos que se passam, sobre as coisas que a gente precisa passar e passa mesmo sem perceber. E no último domingo, logo depois que o filme Boyhood ganhou o principal prêmio da noite no concorrido Golden Globes, percebi e percebo o quanto todo mundo valoriza a necessidade de se lembrar de que tudo isso que estamos vivendo hoje é passageiro, logo ficará para trás. Mas a bagagem é sempre muito grande, para todos.

O filme, do diretor Richard Linklater, foi gravado em 12 anos. Uma semana por ano acompanhando o crescimento dos atores e a sensação, ao final da sessão, que criamos uma certa intimidade com as personagens, um apego ao menino Mason, que aparece como uma criança no começo e, ao final, está na faculdade, ou à mãe Olivia, que cria sozinha seus dois filhos, casa, descasa, casa, descasa e joga na nossa cara a realidade de tanta gente, que pode pertencer a qualquer um. E aí está a chave do sucesso: a identificação.

É difícil não se ver na tela, como uma criança curiosa, como um adolescente descobrindo mil coisas novas, com a confusão que se passa na cabeça de todo mundo sempre, quando se trata de pés na bunda, de decepções, de irmãos chatos mas que, no fundo, são melhores amigos, de melhores amigos que somem de um dia para o outro, da descoberta de defeitos e qualidades em quem pensávamos conhecer mais do que a nós mesmos e tudo mais. E todo mundo está fadado a isso, sinto lhe dizer. Todo mundo vai se arrepender de certas coisas, será feliz por outras, e vida que segue! E quando você menos percebe, o tempo passa, as rugas aparecem e você olha para trás e percebe que tudo aquilo foi apenas um caminho até onde você está. E, novamente, vida que segue.

E independente de existir ou não um filme que jogue tudo isso na sua cara, mesmo que você nem perceba direito, a gente não precisa (ou não deveria precisar) de um roteiro que mostre que nossas escolhas definem não só nossas vidas, mas de todos que estão conosco, que nos amam e também fazem parte de tudo isso. E eu não sei exatamente se “pensar bem antes de tomar uma decisão” vai resolver algo, porque as coisas não são simples assim como em um manual de instruções, e às vezes a gente pode pensar por dias, meses ou anos, mas se aquela for a nossa vontade, mesmo que totalmente movida por emoções, é assim que será.

Boyhood, apesar de mostrar todo o crescimento e escolhas das personagens, não tem um ponto máximo em seu enredo. Mas, de qualquer forma, não vou sugerir que você corra atrás do clímax da sua própria história, afinal, não teria motivos para continuar escrevendo o que vem depois, se o auge já aconteceu. Mas que, na verdade, viva cada dia da maneira que te fizer melhor, aproveite os momentos e as pessoas, busque as coisas que te fazem bem, se deixe levar pelo fluxo natural dos anos, se deixe ter rugas e cabelos grisalhos quando for a hora, se deixe fazer escolhas, ser feliz com elas ou se arrepender, mas se deixe ter o seu próprio caminho também, e ter certeza de que ele foi exatamente como deveria ter sido. Seu.

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Questão de favoritismo

De todas as pessoas, de todos que já conheci, independente de números, de tempo, de qualquer coisa, de tudo isso, você sempre será meu favorito.

É do seu rosto que me lembrarei antes de dormir. O seu sorriso que me arrancará um sorrisinho de canto de boca sem nenhum motivo. Suas histórias malucas que carregarei na memória para me divertirem por onde for. É o seu beijo que ficarei com vontade em um final de tarde nublado vendo aquela nossa série favorita no netflix. É para você que mandarei mensagem quando estiver confusa demais para tomar qualquer decisão sozinha. É seu cheiro que ficará no meu travesseiro e que me fará corar. É de você que lembrarei quando passar por nosso restaurante favorito daquela gordisse noturna para fugir do regime. Você sempre será o meu favorito em tudo, de todos.

Isso não é segredo nenhum e nem deveria ser. Sorte daqueles que também tem certo favoritismo no coração e corajosos os que não se cansam de encontrar algo ou alguém que realmente mude sua vida. Afinal de contas, o que seria de nós se não tivéssemos nos encontrados? Bem, vivos com certeza estaríamos. Felizes talvez a gente estivesse também. Mas não seria nem de longe a mesma coisa e sabe o porquê? Por que nós nos moldamos nas nossas melhores molduras, guardadas à sete chaves, para que ninguém mais conseguisse repetir a dose. Porque esse encontro foi essencial para que eu escrevesse esse texto para você, em meio aos meus pensamentos tumultuados de sempre. Em meio ao nosso tumulto particular de sempre. Entre o nosso possível apego sincero.

E por isso não ha como esconder o meu favoritismo. Não tem nenhum jeito que esconda aqui no fundo do coração que é você e sempre foi você, apesar de não ter te conhecido antes, apesar de não te conhecer ainda, mas saber que você está aí sim em algum lugar, esperando pelo meus gosto, pela minha preferência, pela minha moldura, para dar sua forma à minha vida, para nos preferirmos em tudo, sempre.

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Felizes novas escolhas.

Chega o fim de cada ano e todo mundo começa a rever tudo o que passou até ali, planejar o próximo ano, fazer novas promessas e encarar aquilo tudo, enfim, como uma nova oportunidade de ter um ano melhor ainda.

Eu nunca entendi direito esse negócio de usar o réveillon como um ritual de passagem, como se todas as coisas mudassem instantaneamente a partir do dia 31 de dezembro, mas admiro aquele bichinho da esperança que brota em cada um nessa data. Apesar de achar, na realidade, que esse tal bichinho deveria estar presente todos os dias.

Em um ano muita coisa pode mudar e com certeza mudará. A gente passa por muita coisa, vê muita coisa, aprende muita coisa. Tomamos decisões certas, erradas, de cabeça quente ou bem pensadas. Ganhamos novos melhores amigos de infância e perdemos amigos que conhecemos a anos. A gente cai. Mas aprende a levantar. E é essa a graça das coisas, afinal. Se tudo tivesse dado certo na minha vida até aqui em todos os aspectos, acho que teria muito menos histórias para contar e, com certeza, não teria metade da cara e coragem que ganhei para encontrar uma solução para os meus problemas.

2014 foi um ano de provações, de escolhas. E 2015 não promete ser diferente.

O negócio aqui, meu amigo, é encarar que a gente nunca vai ter 365 dias perfeitos, que não adianta nada prometer ficar 1 ano sem refrigerante ou chocolate caso aconteça algo se nós mesmos não corrermos atrás dessa coisa, se não tivermos a cara suficiente para dar a tapa quando arriscamos, quando não estamos satisfeitos.

Mas não quero nem de longe parecer pessimista, mas sim realista. As coisas acontecem, às vezes como queremos e às vezes não. Mas, como em 2014, e em todos os outros anos, a gente aprende a carregar tudo isso porque a nossa força é muito maior do que se imagina. E assim sempre vai ser! E como é bom quando olhamos para trás e nos surpreendemos com nós mesmos, não é?

Feliz 2015 e felizes escolhas, sempre!

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